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salar de talar, piedras rojas, lagunas e a natureza mágica


Depois da chegada nos tours do Valle de La Luna e o astronômico, eu resolvi fazer um full-day tour que ia levar a gente a uma altitude maior: mais de 4.000m. É o tour onde passamos pela Laguna Chaxa, Salar de Talar, Piedras Rojas, Lagunas Miscanti e Miñiques e o povoado de Socaire. É um tour lindo, longo, cansativo e cheio de surpresas.

Quem vive na selva de pedra e tá acostumado a ver gente levar passarinho pra passear em gaiola se impressiona com os animais silvestres soltos, né? Pois é, eu me impressionei e me emocionei com cada um que eu tive a chance de ver. Os primeiros foram os flamingos na Laguna Chaxa, onde chegamos pra tomar o desayuno com muito pão duro e café solúvel hehehe. Foi a primeira vez que eu vi os flamingos, e fiquei encantada mesmo sendo tão poucos e tão tímidos hehehe :) Achei massa que além de ver enquanto eles andavam e comiam pela laguna, vi alguns voando de um lado para o outro, foi lindo. Tava um frio da porra! Muito vento e ainda eram antes das 8h da manhã, e quanto mais cedo, mais frio faz nesse lugar. Então era muito chá e muito café pra tentar aquecer um pouco, viu?

Por saber que iríamos subir bem nesse tour, já comecei tomando chá de coca pra evitar passar mal. Além de que é recomendável que se coma pouco e beba muita água, que ajuda na oxigenação do sangue. Caminhamos um pouco por entre essas lagunas, e é impressionante ver a formação do terreno. Se eu fosse imaginar o solo da lua, seria assim. Umas formações de sal e pedra meio pontudas, quase agressivas, misturado com as lagunas e uma vegetação desértica. É lindo, lindo. Seguimos caminho.Durante esse tour nós percorremos um total de 270km entre ida e volta, e nesse percurso nós rodeamos o tempo todo o volcán Miñiques e temos a chance de vê-lo de diferentes ângulos. É lindo como parecem vários vulcões em um só. Nossa guia Nadia, a mesma guia do dia anterior, é uma apaixonada pela natureza, pela história e pela magia local, e ela falou com um amor tão grande por este vulcão que é impossível não sentir sua presença real. <3

Aí na foto de cima dá pra ver as vicuñas, que são parentes selvagens das lhamas. Sempre em bando, com um macho para várias fêmeas, a gente aprendeu a identificar quem é quem, vimos filhotinhos, vimos elas nos olhando e correndo de nós. Elas se alimentam desses arbustos e fazem longas caminhadas pelas montanhas. Fofas. <3A caminho do Salar de Talar e das Piedras Rojas, paramos no Trópico de Capricórnio (meu ascendente que tô torcendo que assuma logo esse coração que é mais canceriano que geminiano, socorro!) e pudemos ver o Camino Del Inca, que é essa pequena estrada ladeada por pedras, onde os caminhantes atravessam looongos quilômetros entre o Chile e a Bolívia. É impressionante ver o caminho sumir de vista para os dois lados, e nós no meio. É uma energia impressionante. A primeira vista que temos do Salar de Talar é de longe, e essas suas montanhas parecem pintadas à mão! Suaves, macias, parece um contraponto com as duras montanhas e vulcões da Cordilheira dos Andes. As Piedras Rojas são rojas mesmo! A cor avermelhada delas é linda e o formato, esculpido pela água e pelo vento parecem ondas que acabaram de ser derramadas. O vento aí é muuuuito forte, tudo é muito frio. Inclusive as águas da Laguna Aguas Calientes é muito fria hahaha Essa água transparente parece tão convidativa pra um mergulho, né? Mas só de molhar a mão achei que fosse congelar inteira hahaha :P E meu amigo Tim, o mesmo do tour de ontem, com sua vibe sensorial, que me fez colocar a mão na água e sentir que é salgada. :)

Aí a gente estava a mais de 4.000m acima do nível do mar e foi a primeira vez que eu senti os efeitos da altitude. Ao contrário de várias outras pessoas que passam suuuuper mal, eu só estava levemente bêbada. Não podia levantar a cabeça rápido que tudo rodava. Tava meio tonta e me sentindo super cansada. A orientação é sempre andar devagar, e com essa tontura parecia que eu tava andando na lua, passos altos, lentos e loucos hahaha :P A respiração funda é mais pra acalmar o coração, porque o ar não entra nem a pau. É babado. 

As Lagunas Miscanti e Miñiques são mágicas. Além de parecerem uma pintura, têm uma história muito interessante. Elas ficam uma do lado da outra e antigamente elas eram uma lagoa só, enorme. Aí o vulcão Miñiques entrou em erupção e dividiu a lagoa em duas lagoas irmãs. Mas o mistério está nas diferenças entre as duas. Uma tem água doce e a outra água salgada, como pode? Uma é super rasa e a outra tem uma profundidade desconhecida. Uma tem pouquíssimos peixes, outra é rica em vida aquática. Diferentes tipos de pássaros frequentam cada uma delas, inclusive é por conta deles que não podemos nos aproximar das águas. E uma delas congela no inverno e a outra não.

As lagunas irmãs são tão diferentes e igualmente bonitas. Uma metáfora da altitude pra vida. <3Paramos para almoçar num lugar onde dava pra ouvir o rio passando, apesar de não dar pra ver. Entre pedras e uma vegetação rara, comemos nosso Rap10 com palmito, tomate, amendoim, milho e atum, além de mais café solúvel hehehe

Aí eu consegui me distanciar um pouco da turma e sentei de frente pra essa vista da foto aí de cima. Sentei, vi uns pequenos répteis e uns insetos estranhos, e consegui meditar um pouco. Muita natureza desse tour pra absorver, viu?Uma pausa na estrada para ver a lua nascer entre os vulcões <3 E pra observar um pouco do povoado de Socaire, que tem a agricultura como forma de sobrevivência. Imagina, né? Nesse solo, nesse clima, nessas condições, a vida vive e faz viver. Eita que eu tô é poética hahaha :PPor fim, todos já exaustos e dormindo o tempo inteiro na van, o que também é culpa da altitude, paramos no povoado de Socaire. Lá tem uma pequena igreja, uma pequena praça, uma pequena lojinha de artesanato e grandes cactus. Esses enormes, que de tão grandes são usados como madeira em algumas construções, como nessa porta.

Essa capelinha aí é super antiga, não me lembro de quando, mas de antes da invasão dos espanhóis. Eles mantiveram ela, colocaram uma cruz e construíram uma igreja atrás para agradar os católicos invasores. Hoje ela tá assim, acabadinha, mas é um símbolo do povoado.

E depois disso, voltamos para San Pedro. É um tour que dura aproximadamente 12 horas, passa por essa quantidade de lugar lindo, onde podemos ver diferentes bichos, viver diferentes experiências visuais e sensoriais, e onde nenhuma foto vai conseguir traduzir o que vi, vivi e senti por aí.

Voltei meio derrubada pro hostel, onde conheci dois uruguaios super gente boa que estavam voltando da Bolívia. Saímos pra jantar juntos, encontrei uma sopa pra aquecer meu coração e capotei de sono depois. Tava precisando. O segundo dia foi ainda mais incrível que o primeiro, e o Atacama foi ganhando meu amor verdadeiro a cada minuto que passava. <3


mais um ano novo de novo esse ano


Foto: Isis de Aragão/ Novo Expediente

Quantas viradas de ano novo cabem num ano só? Esse mês fez dois anos que eu saí da vida de emprego pra vida de trabalho, e que eu fui ressignificando meu tempo, meu calendário, meus dias. O fim do mês não é mais o tempo de salário, a sexta-feira não o dia da alforria e nem a segunda o dia da tortura. Não preciso esperar minhas férias, ou o fim de semana, ou a hora de largar. Eu faço esse tempo. E sabe o que é preciso pra tomar as rédeas disso? Força. Muita força.

Em dois anos tanta coisa mudou na minha vida. Quantos plot twist cabem no roteiro da minha vida? Sei nem contar. Mas algumas mudanças soam muito como uma grande virada de ano novo. Entre tantas que já aconteceram, eu me peguei falando “no ano passado…” para as coisas que tinham acontecido antes da minha viagem pela América Latina. E esses “atos falhos”, que de talhos não têm nada, são um sinal que devemos analisar com carinho e atenção. Sim, foi um ano novo. Uma virada. E que virada.

Desde que voltei muita coisa tem se revirado na minha vida, na cabeça, no coração, nos planos, no estômago, em tudo. E, entre tantas voltas, eu completei mais uma em torno do sol. Meus 31 anos vieram beeeem diferentes dos meus 30. Em um ano quanta coisa aconteceu, minha nossa! E entre um inferno astral super denso misturado com TPM, lua cheia e um monte de circunstâncias malucas, eu fiz 31. Sem festa, sem planos, sem convites, sem mobilizações, sem expectativas. Encontrei, por acaso, algumas pessoas queridas para trocar carinhos em forma de abraços, beijos, segredos, palavras, olhares, comidas, bebidas, lágrimas e otras cositas más. Encontrei a família para trocar força, porque é daí que eu tiro a minha. E depois de me perder tanto de mim mesma, vi que posso voltar a me encontrar também.

Ah os encontros e desencontros. O que seríamos de nós sem eles, afinal. Muitas vezes para enxergar novos caminhos, às vezes até mais floridos e férteis, precisamos nos perder entre uns espinhos. E quando o caminho ladrilhado com pedrinhas de brilhante se mostrar, vamos trilhar, dançar e curtir cada passo dessa trajetória. Porque a bonança nunca é pra sempre, e nem a tempestade deixa de passar.

Entre minhas descobertas e trabalhos de desenvolvimento pessoal, eu fiz um exercício onde deveria escrever três características minhas muito claras, que as pessoas enxergam fácil. E depois, deixar só uma, aquela que as pessoas colocariam na minha lápide. E, sem saber direito o que esperar, escrevi isso. Eu sou forte. É assim que muita gente me vê. É assim que eu me sinto. É assim que eu me porto. É esse meu escudo e minha espada. É esse peso que eu carrego. Essa é a minha luta.

Porque ser forte tem seus lados bons e ruins. Tem seu peso e sua leveza. E é a cada ano novo que eu passo que consigo entender melhor essa minha força, e ver como ela se expressa na minha vulnerabilidade, no meu choro, nos meus pedidos de ajuda, na minha queda e na minha ascenção. Então, minha reflexão para este momento é deixar que a força não seja uma dureza impenetrável, mas que seja a porta para a fragilidade se sentir segura em existir na sua forma mais suave. É preciso ser muito forte para se deixar fraquejar. Sigamos.

<3


san pedro de atacama – valle de la luna e tour astronômico


Quando a gente chega naquele pequeno aeroporto de Calama, no meio do nada, já dá pra perceber: estamos no deserto. Cactos por todos os lados, aquele chão seco de terra, aquele ar diferente de respirar e cachorros por todos os lugares. Sim, inclusive dentro do aeroporto. A chegada é linda, cheguei de manhã bem cedinho e só não vi amanhecer pela janela do avião porque estava dormindo, naturalmente. hahaha :P Mas oh, foi pisar em Calama que eu já senti meu coração bater mais forte. Parece que a aventura tava prestes a começar.

Todo mundo que chega em Calama tá com o mesmo objetivo: pegar um transfer pra San Pedro de Atacama. Vários agentes vão te abordar na saída te oferecendo esses transfers, a dica é ir num dos guichês e escolher uma van dessas empresas oficiais. E outra dica é pechinchar. Sim, dentro do aeroporto nos guichês oficiais. Parece coisa de brasileiro, né? Pode até ser. Eu tava ligada que ia pagar na casa dos 12.000 pesos (+- R$70) pela passagem. Mas aí fiquei na frente de uns brasileiros na fila e ouvi quando um deles disse para a moça algo tipo “aaahh mas um amigo meu veio aqui semana passada e pagou 10.000 (+- R$60)”.  E a moça prontamente baixou o preço. Eu só fiz olhar pra ela e dizer “10.000, né?”, e pronto. Foi isso. :P

A estrada de Calama pra San Pedro é linda, e uma das coisas que mais me chamou atenção foram uns santuários que a galera constrói para pessoas que morreram em acidentes na estrada, sabe? Aqui no Brasil é comum ver umas cruzes, algumas capelinhas com flores e tal. Mas lá o lance parece profissional. São santuários gigantes, alguns a galera coloca o próprio carro e faz uma construção toda robusta em homenagem aos que fizeram a passagem por ali. É meio assustador. Eu tirei umas fotos mas está na leva do que perdi no celular. :( Mas, vida que segue. :)

O transfer deixa a gente na porta do hostel. Como San Pedro é uma cidade muito pequena e só tem basicamente hostels, agências de turismo, restaurantes e mercadinhos, todo mundo se conhece e sabe onde fica tudo. Dá o nome do hostel pro moço do transfer e pronto, desce na porta. Eu fiquei no Hostal Rural, que já tinha reservado pelo booking no Brasil.

O que eu percebi no Atacama é que os preços variam sempre entre “caro” e “estupidamente caro”. O meio termo por lá não existe muito. Esse hostel, por exemplo, que é bem rústico, os quartos compartilhados são pequenos e não tão organizados assim, e tem um café da manhã com o pão mais duro que já comi, café solúvel e geléia dessas de potinho de plástico, por uma diária de +-R$100. Isso pra você dormir num quarto compartilhado com banheiro privativo pra 6 pessoas. Eu boto fé que reservando por lá você consegue até mais barato, mas vi uma galera tendo que pular de hostel em hostel porque as vagas vão lotando e quem não tá com reserva prévia tem que sair. Então acredito que apesar do preço, vale pela garantia.

Como cheguei muito cedo e ainda não tava na hora do check in, deixei meu mochilão por lá e fui dar uma volta na cidade, ver o que tinha pra fazer por lá pra me aclimatar. San Pedro de Atacama fica 2.438m acima do nível do mar, e tem muita gente que sofre com a altitude. Eu tava só me sentindo um pouco mais cansada que o normal. Subia um lance de escada e tava respirando fundo. Fora isso, tava de boas.

No próprio hostel eles oferecem alguns tours, mas a dica é buscar nas agências da cidade e comparar os preços, que podem variar bastante. Outra dica é buscar as agências que ficam nas ruas transversais, porque tudo que fica na rua principal tende a ser mais caro. Entrei em algumas agências, peguei uns folders e a conversa é sempre a mesma: fecha todos os pacotes de todos os dias de todos os passeios que você vai ganhar um desconto maravilhoso e ficar preso com a gente durante toda sua estadia em San Pedro. Cuidado com isso, tá? Os tours são cansativos e às vezes sair emendando um no outro pode ser uma cilada.

Depois de umas rodadas sentei na Atacama Connection e comecei a conversar com a moça. Olhei pra ela e achei o sotaque espanhol meio diferente, depois dela já ter me explicado uns 3 tours diferentes. Aí perguntei de onde ela era, e foi batata: Brasil! Então começamos a falar português felizes da vida, e ela achando que eu era francesa ou espanhola, como a maioria das pessoas pensou durante a viagem. :P Claro que de brasileira pra brasileira os descontos foram maiores e eu agendei praticamente todos os meus tours com essa agência, mas não de uma vez.

Para o primeiro dia o tour de aclimatação é o Valle de La Luna, que não tem uma diferença de altitude em relação a cidade. O tour sai no meio da tarde e vai até o pôr do sol, e a gente percorre cerca de 50km numa van com nosso guia-motorista. No meu caso foi uma mulher, são poucas por lá que comandam os tours. Fui com meus sapatos de trekking porque me avisaram das caminhadas e oh, salvou. Tanto no Valle de La Luna quanto na Cordilheira de Sal a gente anda bastante, sobe uns morro de areia e precisa de muita água pra aguentar o tranco.Não só pelo clima seco, mas pela quantidade de sal que tem em todo lugar por lá, água é seeeempre necessário. Essa formação rochosa aí em cima é conhecida como Três Marias, e a história é que essa menor aí do lado esquerdo na verdade era maior, mas um turista europeu sem noção resolveu chegar junto pra tirar uma foto e derrubou um pedaço desta formação vulcânica milenar. Por isso, algumas áreas desses parques são isoladas e o acesso é restrito. Tudo isso branco é sal. Muito sal. Sal bagarai. Coloquei essa indicação aí da van na estradinha pra tentar dar um referencial de tamanho e amplitude desta vista. Gigante, né não? Enorme e isso é só um pedacinho. Ê mundão bão. <3

Sabe de onde vem todo esse sal? Da época que o nosso mundo estava formando os seus continentes. A Pangéia se separou, as placas continentais deram aquela flutuada marota e quando a placa Nazca se chocou com a placa Sul Americana, emergiu a Cordilheira dos Andes e tudo isso que rodeia a espinha dorsal da América Latina. E como saiu das profundezas do oceano, a gente encontra muito sal e tem alguns pesquisadores que encontraram até fósseis marinhos no alto da Cordilheira. Massa, né? :)

Durante esse tour a gente vai na Cordilheira de Sal, na Caverna de Sal, e eu tive a sorte de estar dividindo o rolê com Tim, um alemão que mora no Equador e é super gente boa. Ele é uma pessoa super sensorial, então estava o tempo todo sentindo a textura das diferentes areias, pedras, superfícies por onde a gente passava. Isso me despertou essa curiosidade e foi massa ir tocando nas coisas e tendo essa sensação diferente das texturas. As formações de sal são impressionantes! Algumas vezes parecem cristais. Sim, eu passei a mão no sal e botei na boca, com sujeira e tudo. Tô vacinada e tomo remédio de verme pra isso hahaha :P O céu azul e esse sol todo podem esconder umas surpresas, mas nesse dia estava quente mesmo. As caminhadas e subidas ajudaram também, eu estava suando! De regata e calça, e pingando. Mas eu tinha sido avisada para levar casaco que ia esfriar, ele tava na van me esperando. Depois da gente andar tudo e a nossa guia Nadia nos mostrar coisas lindas e nos sugerir agradecer a Pachamama por toda a experiência, fomos ver o pôr do sol. QUE PÔR DO SOL INCRÍVEL! <3

A vista lá de cima é estupenda, os relevos são super diferentes, dá pra ficar olhando por horas descobrindo formas, texturas, tudo. O queixo caiu e até o fim da viagem não levantou mais. Pena que nenhuma foto consegue mostrar, sério.É só o sol começar a baixar que o frio começa a bater, instantâneo. E aí venta muuuuito! Aquele vento de clima seco, frio cortante, é babado. É bom levar algo pra proteger o rosto e a garganta, além das orelhas. Eu tava com um negócio que comprei em Santiago e não sei como chama, mas é tipo uma gola que a pessoa pode fazer de gorro ou colocar também na cara. Bem quente e útil pra esses casos. :P Coloquei o casaco corta-vento carinhosamente emprestado pela amiga Flavinha que já tinha feito essa viagem e pronto. Consegui ver o pôr do sol feliz, apesar do frio.

O sol se põe de um lado e deixa a Cordilheira dos Andes toda laranja, o Lincancabur todo maravilhoso colorido, é um espetáculo que não consigo descrever. Sério. Quando o sol se recolheu, nós também nos recolhemos. Hora de voltar pra San Pedro morrendo de frio dentro da van. Chegando lá saí pra jantar com Tim, pois tínhamos agendado para a mesma noite o tour astronômico. Quando cheguei no Atacama a lua estava crescente e bem crescidinha já, o que não é legal pra observação astronômica. Nunca pensei que fosse ficar triste com o brilho da lua, viu? Hahaha :)

Algumas agências nem vendem o tour astronômico na lua cheia, por exemplo. Em noites sem lua é fácil ver a Via Láctea a olho nu, além das constelações e estrelas cadentes mil. O Atacama possui o maior  observatório astronômico do mundo, e atrai estudiosos de todos os lugares.

Jantei um delicioso sanduíche de creme de abacate com tomate e queijo, e fomos para a agência esperar sair a van para as estrelas. :) A gente se afasta até um telescópio que fica longe das luzes da cidade, pra melhorar a visibilidade. O frio é grande e eles distribuem uns cobertores, chá, chocolate quente e café, além de uns bolinhos e bolachas pra gente não se concentrar só no vento que tá levando na cara hahaha :P

O guia tem um laser point que é babaaaado! Ele consegue apontar para as estrelas e constelações, desenhando bem direitinho o que ele tá explicando. Aí dando uma olhada aqui no meu diário, pra escrever esse post, anotei que a primeira constelação que ele mostrou foi Sirius Black, que é o nome “original” de Gato Gil, meu gato mais velho. <3 Na sequência ele mostrou as constelações de Gêmeos e Leão, eu e Malu, minha irmã. <3 Acho que eu tava bem sentimental esse dia hahaha

Depois ele começa a apontar o telescópio para alguns planetas e estrelas, e a gente se reveza pra olhar. Eu vi Júpiter e 3 luas e várias outras coisas. Levei um choque no olho quando fui ver a lua, por conta da estática do deserto. Pense num susto! Aí quando ele aponta pra lua ele pega os nossos celulares e faz uma foto pelo telescópio, que é o nosso souvenir, já que não dá pra tirar fotos por lá porque é completamente escuro. Até tentei com a câmera, suando baixa velocidade, mas sem sucesso. É breu total.Cheguei no Atacama com o pé direito. Energia do sal, da terra, do sol, da lua, das estrelas. Eu sou mesmo abençoada. Gracias, Pachamama! <3


10 anos de dona de casa


Quando paro pra pensar que já faz 10 anos que eu saí da casa de mamãe, eu vejo quanta transformação cabe em 1/3 da minha vida. Eu saí de casa sem saber fazer nem um arroz, hoje cozinhar é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. Saí de casa era estagiária, fui empregada, empresária e hoje sou empreendedora independente. Saí de casa sem nenhum bicho, tive gatos que se foram, Chica, minha cachorrinha que me acompanha há 8 desses 10 anos, e mais dois gatos que chegaram pra ficar. Nesses 10 anos quanta coisa aconteceu, por dentro e por fora. Morei com namorados, namorei sem morar junto, morei só sem namorar. Morei em 4 casas diferentes e senti bem quando a nossa energia não assenta em um ambiente, e quando ela encaixa perfeitamente. Tomei gosto por decoração, por reforma, por plantas, por minha furadeira e minha caixa de ferramentas. Descobri que sou uma bagunceira e acumuladora crônica e luto contra isso. Engordei, emagreci, engordei, emagreci num loop que nem sei contar, mas que varia entre 15kg para mais e para menos. Impossível listar as mudanças que aconteceram comigo, mas acredito que a maior delas é aqui dentro.

Nesses 10 anos, menos da metade foi morando realmente só. Mas posso dizer que foram os períodos mais intensos dessa experiência. Tive momentos super difíceis de separação, tristeza, solidão. Tive momentos super maravilhosos de mudança, construção e um sentimento de que ficar sozinha não é se sentir só. Aprendi a apreciar minha companhia e vi que só eu posso enxergar a minha maior força e minha maior fragilidade. Engraçado como às vezes é difícil se encarar, e às vezes é tudo que precisamos. Eu aprendi a entender meus ciclos e sigo aprendendo com eles.

Morar sozinha me ensinou que a gente só devia poder ficar doente na casa da mãe quando ela pode cuidar de nós, mas também me ensinou a fazer sopa só pra mim mesmo quando estou pelando de febre. Me ensinou que fazer feira pode ser uma delícia, cozinhar só pra mim pode ser maravilhoso, mas que lavar louça continua sendo um saco, especialmente os talheres (pior parte pra mim, juro). Me ensinou que eu posso fazer da minha casa meu templo, meu covil, minha caverna, meu palco. Mas seja o que eu escolha fazer, eu sou a protagonista deste cenário. Porque morar sozinha me ensinou a ser sim protagonista da minha vida.

E isso é um trunfo sem tamanho. A gente aprende o peso e a alegria de fazer o papel principal todos os dias, da hora que acordamos até a hora que vamos dormir. Que muitas vezes a fragilidade não é uma opção, mas que ela também não é algo que devemos nos envergonhar ou negar. Morar só me ensinou que eu tenho que ser forte, mas que eu posso fraquejar e que tá tudo bem. Me ensinou que eu posso chorar sozinha sem motivo, que eu posso rir sozinha sem motivo, que eu posso falar sozinha sem motivo, e que tá tudo bem. Me ensinou que eu posso não querer falar com ninguém ou que eu posso querer falar com todo mundo ao mesmo tempo pra não sentir o peso do silêncio, e que tá tudo bem. Me ensinou que existem épocas de vacas gordas e épocas de vacas magras, mas que sempre fica tudo bem. Me ensinou que cuidar de uma casa toda sozinha com três bichos cansa, e que tem horas que eu não quero ter que lidar com isso, e que tá tudo bem. Me ensinou que fazer faxina pode ser uma terapia ou um castigo, e tá tudo bem. Morar só me ensinou que você pode querer sua individualidade ou querer dividir a vida com outra pessoa, ou com outras pessoas, e que tá tudo bem.

Na real, morar só tem me ensinado muito, todos os dias uma coisa diferente. E me sinto muito feliz por ter a oportunidade de viver essa experiência tão intensa há tanto tempo. Morar só me ensina a me julgar menos, o que é uma das coisas mais difíceis da vida, acredito. E me ensina sobre limites, que é uma das coisas mais importantes da vida.

Esse não é um texto pra dizer que morar só é melhor ou pior do que casar, dividir casa com amigos ou morar com a família. Passei por tudo isso e tenho aprendizados memoráveis de cada uma dessas etapas da minha vida. Mas moro só há alguns anos e é essa realidade que pulsa aqui dentro, do quão valioso é viver e entender nosso espaço.

Desejo que todos um dia possam ter essa difícil e deliciosa experiência de autoconhecimento.

Esse autoretrato é antigo, mas eu gosto dele. Um domingo, eu, um vinho, meus bichos e alguma coisa na TV pra espairecer. Acho que é uma boa representação do texto. :)

Em breve, novos posts sobre a viagem. <3



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